Léa Ferro ~ Arpoador: Contos e Poesias
"A noite é o silêncio que cala o olhar dos amantes!" Léa Ferro 1994
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Sonhos e Estações:
Category: Books
Genre:  Literature & Fiction
Author: Léa Ferro  

- Você me faz feliz!

Ela recordava ter pronunciado algo sobre a saudade, suas palavras eram discretas, apesar da falta que sentia dela em seus dias. Queria dizer que estava cheia de saudades e sua ausência a devolvia ao exílio dos dias, que a saudade era como a de Lispector e causava-lhe fome, mas conteve-se. Adotou um comportamento ponderado e foi apenas serena em suas palavras.

Ao rabiscar o postal, algo lhe dizia um sorriso tímido seria esboçado ao tê-lo em mãos. Fechou os olhos enquanto equilibrava a caneta por entre os dedos e imaginou sua face absorvendo aquelas palavras simples.

“Porque é que todas as coisas bonitas me levam até você?”

A chuva de verão caia desesperadamente molhando sua tarde e seus pensamentos, sentiu o cheiro de terra molhada e o doce do capim invadir o seu ser. Aspirou profundamente como se pudesse absorver toda a vida e beleza a sua volta. Logo o sol traria o arco-íris ao céu, entontecendo os seus sentimentos inocentes.

“Havia um tempo / em que eu vivia um sentimento quase infantil / havia o medo e a timidez / todo lado que você nunca viu...”

Acompanhando a letra da canção num tom de voz que beirava o sussurro, sorriu. Imaginou qual expressão ela faria ao ouvir a melodia, qual seria o seu olhar diante o momento, que movimentos fariam as suas mãos, que tom sua voz teria.

Lembrou-se do primeiro olhar, a primeira vez que viu seu rosto melancólico e terno distribuindo carinho. Tinha as mãos a amparar o queixo e os cabelos desgarrados ao longo da testa, como quem acabara de amanhecer e desejava ardentemente uma caneca de café recém coado, chegando acompanhado de um beijo cúmplice.

Naquela manhã de chuva gostosa e repleta das preguiças ousadas de um Domingo, ela desejava ter despertado embolada entre seus braços e travesseiros e ser a primeira a ver aquele olhar manhoso, levar até a cama uma caneca de café fumegante e fazer-lhe amor sem pressa com os dedos mergulhados em seus cabelos escuros. Como seria bom ouvi-la distribuir gemidos e cochichos em seus ouvidos famintos.

“Quando eu te vi o sonho aconteceu / quando eu te vi meu mundo amanheceu / e sei que estás em algum jardim entre as flores...”

Tantos pensamentos e agora a saudade arrebatava o seu dia, sem chances para escapar de tais sensações, as semanas pareciam meses e aguardava seu retorno com expectativa e insegurança. “Insegurança?” – Pensou. Não se lembrava de sentir insegurança antes. Parecia um sentimento novo, mas era igual a atravessar ponte de cordas sem beiral. São sentimentos como este que exigem certo equilíbrio. Mas... Como equilibrar-se diante aquele jeitinho matreiro de menina que tem cara de que pede colo?

Tinha que permitir-se: - o ousado, o novo, o bom, o sincero, o certo, o louco, o calmo, o lúcido, o incerto, o atrevido, a paixão, a glória, a paz, a vida, a aragem, a raiz, a fantasia, a realidade, a esperança, a explosão, a saudade, a chuva...

Precisava de todas estas coisas grandes e pequenas do mundo, sabia que caminhar onde nada acontece protegia seus sentimentos, mas estava mais do que na hora de derrubar as muralhas à sua volta e mergulhar no mar salgado e morno.

“Suporte mais alguns dias, ta?”

Dizia o bilhete da caligrafia bem desenhada em tinta azul no envelope salmão. “Porque escreveu isto?” – Perguntou mais para si mesma. É claro que tinha gostado de recebê-lo, é claro que pensava nela, é claro que sua presença coloria seus dias, mas não esperava respostas, nunca tinha ultrapassado os limites do respeito e da amizade, sabia que ela também vivia no exílio dos dias restado de um amor que fora embora. Porque agora aquelas palavras causadoras de esperanças habitavam seus pensamentos, se esperanças lhe pareciam tolice. Ela não sabia, não sabia de tantas coisas...

A verdade é que ninguém sabe ao certo o momento e que passa a se apaixonar pela outra pessoa ao lado, sabe-se apenas que um dia amanhece e os pensamentos fluem de forma natural. Em algum ponto se sente ciúmes daqueles que a cercam, ou se pega pensando na pessoa de forma mais especial que a maioria, ou simplesmente sorri quando a imagem se forma diante os olhos vagos, como se fora uma tela colorida esbanjadora das alegrias projetadas pelos anjos travessos do céu.

Caminhava pela rua desejando poder encurtar o caminho e ver o mar, queria molhar os pés, a alma, a face... Mergulhar e deixar se embalar pelas ondas. Subiu a rua envolta a paisagem a sua volta, estava próxima ao rio quando a viu. Parou. Fora pega de sobressalto e sua corrente sanguínea agitou-se fazendo seu coração disparar. Respirou fundo e a viu sorrir o sorriso dos deuses.

- Oi menina... Ouvi-a dizer baixinho.

Não pode deixar de esboçar um sorriso quando sua voz invadiu seus ouvidos.

- O que houve com aquilo de suportar mais alguns dias? Provocou. Na verdade estava nervosa, não sabia o que dizer e não esperava que ela pudesse estar diante de si de repente. “Encurtou as férias”. - Pensou.

- Na verdade eu queria que me esperasse, pedi para que suportasse os dias, mas nem eu os suportei. Despejou a mulher causando uma enorme confusão em sua cabeça.

Respirou fundo e balançou a cabeça tentando organizar os pensamentos, viu segurar em sua mão e caminhar ao seu lado, tentou puxar assunto, pensou mil coisas. Desceram a praia, molharam os pés e caminharam silenciosas, a sol despedia-se trazendo a noite, em poucos minutos a negritude tomava conta daquele final de tarde e a água do mar ficava morna, como todas as noites de verão e trovoada. Caminharam ao longo da praia de fina e branca areia deixando a noite responder todas as perguntas que passavam em seus pensamentos, o chiado do mar parecia uma doce canção ofertada pela natureza e a luz da luz começava lentamente a dar brilho à noite.

“A noite é o silêncio que cala o olhar dos amantes!”

Como quem ouve seus pensamentos ela postou-se diante a mulher e encarou com menos timidez aqueles olhos morenos. Não foi capaz de perceber o movimento das mãos tomando seu rosto e o aproximando ao dela. Suspirou. Fitou seus lábios. Desejou-os.

- Tem certas coisas que vêm de você e eu não sei o que dizer, porque elas chegam por outro atalho e me arrebata de emoção... Ouvia responder baixinho.

- Estranha saudade... Respondeu n’outro sussurro.

Ela sabia qual a visão da mulher sobre saudade, sempre recitava um verso que definia todos os sentimentos desta palavra que devoradora. Não esperou que ela respondesse. Acariciou as mãos que amparavam sua face e uniu-se a ela. A mulher a beijou.

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector, in "A Descoberta do Mundo"

Sentiu seus lábios serem tocados pelos da mulher. Seus lábios eram afortunados e desenvoltos. Conduziram-na de forma suave a princípio. Ela permitiu-se ser levada pela boca que a envolvia. A mulher continuava com as mãos em seu rosto como se pudesse fazer parte dela. Ela sentiu fome e aprofundou o beijo. Sentiu a língua procurando a sua. Respirou fundo ao toque mais íntimo, sentiu sua pele arrepiar. A mulher estremeceu ao sentir sua boca ser devorada de forma mais intensa. Os sentimentos e sensações se mesclaram e aos poucos uma paz imensa foi tomando conta de ambas.

Não queriam terminar aquele beijo, não era preciso. Amaram-se.

Seus corpos cederam ao desejo contigo na alma e saciaram a fome as acendia. Por momentos deixavam de ser apenas matéria, não era apenas a carne que desejava ser explorada, invadida, tocada.

“A mais que a lua seja bela, serás sempre a bela lua”.

Morena dos olhos Lua. Era como a chamava, tinha um tom de luar naqueles olhos morenos que a fascinavam. Não fechava os olhos enquanto faziam amor sobre as areias que o sol deixava morno mesmo após a partida, queria decorar cada expressão do seu rosto enquanto o prazer tomava conta de seus corpos e acalmava seus espíritos saudosos. Quando sua face se contorcia, diante o prazer que as fazia abandonar-se no abraço uma da outra, tinha a plena certeza de que o exílio dos dias terminava e cedia lugar a uma nova estação.

O outono anunciava terminar. Ela sentia isto em seu coração. A mulher lhe dirigia uma olhar menos melancólico e deixava-se levar pela troca de carinho e cumplicidade que as dominava.

Amaram-se de forma singular. Sem mais pensar... em porque amar.

“Amar, quando já não há mais atalhos para fuga, amar quando o amor se faz necessário e tudo nos agrada, amar quando os dias tornam-se verdadeiros e todo e qualquer sonho nos transporta para o mundo real.”



Léa Ferro. 2008.
Copyright © 2005/2008 [Contos de Léa Ferro]. Todos os direitos reservados.

Léa Ferro
Enviado por Léa Ferro em 28/09/2008
Alterado em 28/09/2008
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