Léa Ferro ~ Arpoador: Contos e Poesias
"A noite é o silêncio que cala o olhar dos amantes!" Léa Ferro 1994
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Os Miseráveis:
Category: Books  / Genre:  Literature & Fiction  / Author: Léa Ferro  


Os Miseráveis:
(Carta ao silenciado olhar.)

Eu poderia ser insensível a dor, se eu não a conhecesse de perto, se ela não fizesse morada em minha casa, mas como somos íntimas, não pude evitar o choro silencioso.


Eu vi teu olhar enquanto caminhava na madrugada, tu ergueste a mão e acenaste de longe.. Tuas mãos ainda estão tão feridas e faz tanto frio.. Pensei em bater em tua porta, mas eu sei que tu tentas te proteger.. Talvez eu devesse ter te convidado para o vinho.. Mas não o fiz.. Fiquei esperando teu olhar se erguer também.


Está certo que ninguém muda o passado, ora, mas eu queria mudar o presente.. Eu só queria que tu soubesses que não estás sozinha neste inverno tão rigoroso, do lado de fora da vidraça, é onde eu moro, continuo por lá, em meio aos bárbaros, meretrizes e boêmios, com as mãos no bolso e um cigarro aceso.. Nas noites muito frias, acendemos fogueira, bebemos vinho, escrevemos poemas e jogamos cartas.


Qualquer noite passa por lá, moramos nas ruas escuras, porque ficar dentro das vidraças desta cidade, não nos protege do frio, de fato.. Acontece que lá fora somos livres e esperamos a chegada da quarta estação.. Ela pode até demorar, mas sabemos que há de chegar.


Há uma hora em que a neve vai embora, o inverno hiberna e o sol tímido da o ar da graça nas manhãs primaveris, se quiseres caminhar, não deixarei que te sujem os sapatos claros outra vez, nem que te amarrotem o vestido.


Eu sei que fomos excluídos da sociedade, somos miseráveis e o amor há muito tempo nos abandonou, deixando apenas feridas, somos leprosos e nos olham com receio, mas aqui fora, ainda temos um ao outro, temos os nossos sonhos e de mãos dadas caminhamos entre amigos que nos guardam, todas as noites, até nas noites mais famintas e frias.



Eu poderia ser insensível a dor, mas eu não sou, toda dor me comove e a tua me faz chorar, às vezes.. Se eu tivesse te conhecido anos atrás, eu não teria deixado que massacrassem a tua alma, nem a minha.. Mas acontece que somos cegos e distraídos-inocentes num mar de selvageria de pedras e quando nos roubaram o verão, parte de nós morreu para sempre.


O que eu sei, é que ainda há aquela outra parte escondida dentro de nós, metades inteiras de amor no sótão de nossos olhos arranhados.. Damos um passo para frente e recuamos outros dez passos mancos.. Caminhar agora neste frio causa medo imenso, mas eu te digo que cansei dos vitrais, eles nunca nos aninharam, só nos iludiram.


Eu sei que ai dentro onde tu moras, há mantas quentes que aliviam a dor das pernas, pratos de sopa ao cair da noite, canecas de chá que diminuem a sensação invernal, mas aqui de fora podemos ver o mundo que ninguém mais ousa ver.. É claro que a realidade é assustadora, mas esta cidade esconde o brio no gueto e pra lá que vamos quando o inverno partir.


Quando o sol chegar, seremos os primeiros a ver, enquanto toda a cidade ainda estará adormecida.. Eu queria que tu pudesses ver o sol, também!


Deixa o sol entrar?


Léa Ferro. SP. 06 de Março de 2008.
Copyright © 2005/2008 [Contos de Léa Ferro]. Todos os direitos reservados.
Léa Ferro
Enviado por Léa Ferro em 21/04/2009
Alterado em 21/04/2009
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