Léa Ferro ~ Arpoador: Contos e Poesias
"A noite é o silêncio que cala o olhar dos amantes!" Léa Ferro 1994
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Amarras do tempo:
Category: Books  / Genre:  Literature & Fiction / Author: Léa Ferro
  
Amarras do tempo:
“O amor é porta aberta para a dor!”


Não deveria ter te falado da dor estendida nos olhos da saudade... Os meus olhos estão sempre à deriva em tua ausência, os meus olhos adquirem um brilho sei lá de onde quando tu me amanheces sorrindo, os meus olhos estão sempre inundados toda vez que me lembro que te amo; mas que me proíbo, os meus olhos estão sempre sorrindo quando Caetano faz palavrear o meu amor por ti.

Não deveria ter te falado da minha solidão e apreço por tua poesia, agora minha solidão faz par com a dor que me levou ao exílio particular e infinito. Há em mim um outono de folhas secas que jamais morrerá e uma ferida que o tempo não cicatriza, que às vezes, silencia e volta sempre que me perco no mar. Doer se tornou uma regra na equação que não sei decifrar. E pensar que já fui pescador, que soube navegar, que o mar era minha terra...

Eu faço versos como quem sorri, mas é preciso ler ao contrário para compreender as verdades que me escondem de ti. Eu faço versos como quem sussurra os desejos segredados das minhas mãos que te precisam... E as minhas mãos te precisam tanto. Eu queria que pelo menos uma vez tu pudesses ser o barro em minhas mãos oleiras, eu queria moldar os meus versos de amor em ti, eu queria lapidar tua pele com delicadeza e fazer de uma noite de amor a minha obra prima.

Eu faço versos como quem sente a primavera das flores e escondo meus sonhos em palavras a serem decifradas, porque a minha timidez faz presença em mim. Eu sei apenas sorrir quando deveria soletrar todas as palavras. Eu queria ser poeta e rimar os desejos dos meus olhos que te acompanham de longe e te espreitam todas às vezes que tu sorris. Eu queria ser poeta e te falar de amor, embora, eu precise apenas te falar desta saudade.

Eu nunca escondi que te amo e te amo tanto que em mim tudo se derrama desordenadamente, mas eu não te falo do meu desejo onde a tua voz me causa tormento nas noites frias, eu não te digo palavras que surgem da fome dos olhos que te espreitam sorrateiramente, tentei guardar meus desejos mais ardentes no baú de minhas lembranças, mas tenho medo de abrir o baú e me deparar com as coisas que lá eu guardei há tanto tempo.

Eu queria que tu soubesses que sempre vais estar comigo, mas a agonia é maior que os sonhos e eu não fingir felicidade, mesmo que seja para te fazer sorrir. Eu não posso te falar da minha dor, porque a minha dor também dói em ti. Eu não posso te falar do meu amor porque o meu amor me leva as portas do inferno. Eu não posso te falar da minha tristeza porque ela não é mais uma novidade. Eu não posso te falar da minha alegria porque na verdade ela não existe. Eu não posso te falar da minha morte porque não serei eu a causar tamanha mágoa em ti. Eu não posso te falar da minha vida, porque na verdade eu já não tenho vida há muito tempo.

É claro que eu te amo e quando eu vejo o teu retrato um risinho nasce no canto dos lábios, mas acontece que este amor tornou a minha vida pela metade e eu não deveria te amar porque eu não te tenho, eu não deveria te amar porque este amor se tornou proibido, eu não deveria te amar porque as minhas mãos estão tão distantes das tuas, eu não deveria te amar; inda que tu me ames; porque a realidade agora é algo tão concreto quando o solo frio em que caminho. Eu não deveria te amar porque o amor é porta aberta para a dor, mas acontece amor, que se eu fechar a porta agora que tu já entraste te trancarei em mim e tenho que te deixar livre para voar como as borboletas que fazem colorir os olhos que também te amam. Eu não deveria te amar, mas agora é tarde.

Eu me lembro da primeira vez que nos falamos e da forma como tuas palavras me invadiram, neste dia eu me deixei lançar ao ar mesmo não sabendo voar, eu só não sabia da existência dos precipícios, agora as montanhas me oprimem.

Há estações que se manifestam de maneira silenciosa, como as primaveras que eu nunca vi, mas que dizem ser tão belas e perfumadas, que nos encantam com a simplicidade e maestria das cores... Outras se manifestam nos tons e sons de sua chegada e nos levam para o meio de todas as coisas das quais fugimos durante tanto tempo, com tanta vontade, mas por vezes disfarçamos ou apenas brincamos de não ver, nem sentir.

Outonar-se não fora permitido, inda que pequenas folhas sejam ao chão lançada sem piedade, há uma estação para cada um, há um momento para cada um, há um espaço para cada um, mas se o verão fora proibido, rogo ao Deus que una seus exércitos para se quebrar os invernos também, mesmo que estes se aproximem com a pressa dos choros silenciados...

Há de se cuidar das flores para que um dia se possa de fato conhecer as primaveras que nunca vi, mas que sei existentes em algum lugar escondido dos mares que nos fazem velejar, ou nos levam à deriva das eternidades maciças. Há tantos mares, tantos céus e a verdade é que não escolhi nenhum deles, mas fora subitamente escolhida por um que agora me pertence, sem nem mesmo me pertencer.

As amarras do tempo sempre me levam a dor com facilidade, embora todas às vezes eu tente recuar e manter as distancias necessárias da dor, acabo sempre tomando os atalhos errados e já nem sei o que é certo ou errado. Às vezes o errado pode parecer certo e o certo pode parecer errado, depende de quem vê, de que lado se olha... Como um prisma, cada posição tem uma cor diferente e dependendo da força da luz que entra pela janela, tanto ilumina quanto cega.


“O artista tem a alma abandonada!”


“Vai por teus caminhos das ilusões perdidas / eu não me casarei contigo nem construirei muros de felicidade / eu te amo e te prenderei a mim neste amor / mas contigo não ficarei / ficarei com o meu outro amor / tu ficarás só / te condeno por meus erros por precisar de um culpado para a minha culpa /eu não roubarei a vida que te foi dada / um dia subiremos ao céu e jantaremos com Deus / vai por teus caminhos... vai.”

Tu sabes que te amaldiçoei por cada palavra e que jamais esquecerei a expressão dos teus olhos frios derramando despedidas sob meu pesar. Tu sabes que naquele momento não chorei nem sorri, apenas sorvi o gole quente de café que queimava meus lábios sem que eu sentisse e acendi um cigarro desejando ser o último. Tu sabes que troquei todos os meus sonhos por apenas um, por acreditar tanto nas palavras dos teus olhos, que quando roubaste meu único sonho, eu me perdi para sempre. Tu sabes que fiz deste sonho a minha única vida e quando me lançaste ao mar revolto eu já não sabia mais navegar, agora ouço minha voz de dentro da embarcação pedindo para voltar ao cais, mas eu não posso nadar até lá porque me afogarei. Eu não resgatarei a minha voz... Eu não resgatarei a minha vida.

Eu não deveria ter te falado do meu amor por ti, nem do quanto eu me distribuía feliz toda vez que meu olhar fazia morada em ti. Eu não deveria ter deixado que tu passasses a mão em meu rosto e me eternizasse naquele momento.

Eu me eternizei e ainda continuo a morar naquela pequena sala branca onde não há portas e janelas, com um enorme relógio que marca as horas prisioneiras. As paredes altas não me deixam alcançar o relógio e mudar as horas. Eu não alcanso o teto, eu nem sei se ele existe.

Eu me lembro da última vez que nos amamos. Eu sabia que aquela, seria a última vez, mas fingi acreditar que fosse a primeira, como se não fosse doer. Eu te amei, tu me amaste. Agora sinto saudade de adormecer contigo em meu peito e despertar com tuas mãos enroscadas em meus cabelos. Agora sinto saudade do café da manhã que fazia nascer um poema. Eu sinto saudades das tuas mãos que sempre foram tão minhas.

Eu tenho este dom de amar errado e desejar aquilo que nunca posso ter, eu tenho este dom de sonhar de menos e me acostumar com as coisas pequenas, eu tenho este dom de achar que tenho que amar para viver e esquecer que tenho que viver para amar, eu tenho este dom de amar, por amar, por amor somente...

Agora eu tenho toda esta tristeza em mim, num jeito de viver-doer-morrer. Já não sei que cor tem meus olhos, mas eles tem o sabor das lágrimas. Não gosto de lágrimas, sinto saudade dos sorrisos.

E pensar que a única riqueza que desejei da vida foi ter uma família, eu só não sabia que era tão pobre e os meus vinténs não poderiam comprar tamanho sonho. Eu não acreditava que tudo tinha um preço, agora eu acredito. Eu acreditava nas conquistas, agora eu não acredito. Eu acreditava no amor, agora não acredito. Eu não acreditava na dor, agora eu acredito.

“Ser poeta é caminhar onde ninguém jamais ousou!”

Dentre tantos caminhos, Deus resolveu ofertar justamente aquele do qual ninguém jamais me preparou. Eu não ouvi falar dos caminhos estranhos, a não ser pelas palavras de Drumonnd, mas poesia também não nos prepara para a realidade. Poesia, às vezes, nos engana. Eu me enganei muitas vezes.

Quando eu partir, nem vou partir... Vou caminhar nos lugares que me proibiram.

Digo, quando minha carne morrer, porque eu já estou metade morta e minha alma, outrora acesa, adormecida desde que tu de mim partiste. Quando tu partiste, me partiste, ao meio.

Eu me lembro da última vez que meus olhos em ti foram postos, naquele momento eu quis morrer, nos despedimos em silêncio sem saber do que nos aguardava, eu não pude dizer que não voltaria e tuas últimas palavras prometiam que em breve voltaríamos a nos abraçar. Lembro-me do macio do teu abraço e do teu olhar parado na porta me observando por alguns minutos vazios das palavras. Tu me viste chorar, eu te vi sorrir. Teu olhar acreditava no meu retorno, mas como e poderia voltar se tua vida já seguia longe da minha e tudo que me esperava atrás daquela porta era a solidão?

Inda que eu retornasse a dor me seria dada de presente e tu viverias outros dias, amaria outros olhos, beijaria outros lábios... Inda que eu perdoasse, eu viveria só. Eu poderia ter retornado por mim, mas eu não quis, eu poderia ter retornado por ti, mas tu não mereces, eu poderia ter retornado pelos olhares inocentes, mas estes também não eram mais meus... Porque eu retornaria se o teu abandono já me era presente e eterno?

Há um momento em que não queremos mais ser forte, nem fingir que somos capazes, nem sentir obrigação de ser feliz, quando a realidade mostra tudo ao contrário. Há um momento em que queremos apenas deitar e adormecer, na esperança de um dia acordar sem mágoa. Há um momento em que tudo que precisamos é do silêncio e do choro que alivie. Há um momento que se quer de fato morrer, porque viver já nada mais significa. Há um momento em que nos permitimos ser frágeis e desabar porque a dor é tanta e tão imensa, que ilusão alguma nos levantará.

Eu poderia ser feliz, mas acontece que eu sou triste.

“Se os olhos mudam não se ouve a fala!”



Léa Ferro. SP. 24 de Março de 2008.
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Léa Ferro
Enviado por Léa Ferro em 21/04/2009
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Léa Ferro 1994
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