Léa Ferro ~ Arpoador: Contos e Poesias
"A noite é o silêncio que cala o olhar dos amantes!" Léa Ferro 1994
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Gênero: Literatura & Ficção
Autor: Léa Ferro.


As estradas por onde caminho não são as mesmas que me prometi.

Amor não me fora anunciado quando em ti meus olhos foram cravados. Não me prepararam para estes novos dias. Para caminhar é preciso ter firme as pernas ou o solo se parece distante dos pés. Os meus pés não sentem, ainda, tamanha firmeza exigida, por isso não ouso subir as escadas, minhas pernas estão bambas e sempre tive medo das alturas. Penso que se fossemos seres criados para viver nas alturas, Deus nos criaria com asas. Gosto do solo, da terra firme, de tocar as raízes, além das folhas.

Tantas vezes te ouvi dizer eu nos amávamos, mas não era permitido amar. Eu me acostumei a esta mutilada idéia de amar-te em silêncio. Eu me contentava com os teus sorrisos no café da manhã. Eu me contentava com o teu carinho tão intenso. Agora queres me amar. Agora queres que eu aprenda a te amar. Agora queres a minha compreensão devota em todos os momentos. Agora queres que eu entenda que decidistes me amar.

Talvez eu não saiba te amar. É possível.

Acontece que eu não quero que me peça para ser compreensível diante da espera. Eu não esperei para nascer, na verdade eu peguei minha mãe de surpresa antes da hora, em pleno carnaval, e nasci. Eu não posso agora mudar o que eu sou, te esperar e fingir que tudo ficará bem, porque eu estaria mentindo, eu creio que tu já percebeste que não sei mentir. Não, eu não posso mentir, eu também não posso omitir, nem mesmo para te agradar.

Eu sou aquilo mesmo que teus olhos viram e descobriram ao longo destes silenciosos anos. Eu acreditava que te agradaria. Eu acredito.

Eu te amo em segredo há tanto tempo, mas nada exigi de fato. O que eu exijo agora é tão pouco diante o que tenho ofertado sem nenhum arrependimento.

Dizias que me amavas e isto se fazia suficiente. O teu amor era a minha ordem e a minha condenação, mas era o necessário para eu me sentir viva e latente como as quimeras ousadas de uma nova manhã. Tu me amavas e eu era grata por este amor dedicado. Eu te amava e tu te confessavas feliz todos os dias. Era um amor tão proibido que eu me mantinha guardada quando o amor caminhava para o desejo. Eu não te falava de desejos. Eu compreendia que não era permitido. Eu nunca te pedi para me amar. O que eu te pedi foram as sinceridades expressas.

Por que não sei te amar agora que é permitido? Por que não sabes me amar como preciso que me ame?

Eu não me iludo com as palavras, eu não me exalto. Eu engrandeço com as atitudes informais e pequenas. As simplicidades me alcançam, as complicações me enlouquecem, as magnitudes me alegram, as distancias me oprimem, as verdades me atraem, as ausências me calam, as sintonias me envaidecem, as promessas me matam.

Não me faça promessas para depois me mergulhar em solidão. Não me peça aquilo que não me pode dar. Não me faça esperar, porque já não sou jovem e não sei esperar. A verdade é que detesto esperar, mas todo mundo detesta alguma coisa na vida.

É claro que eu poderia mudar sendo tolerante e paciente, mas ninguém muda da noite para o dia, não sozinha quando mais se precisa de alguém.

Não sou ilha, sou arquipélago.

Morei tanto tempo num exílio escuro e frio, de repente tu me trazes o verão, sem me ofertares a primavera preparatória das flores e queres que eu me acostume, num impulso, com a luz do sol que me espreita lá fora. Acontece que o sol ilumina, mas também queima a pele clara. Eu não posso saltar as estações. Ninguém pode.

Eu gosto do verão, me faz lembrar à infância na praia a beira mar, onde eu não precisava de sapatos para me proteger os pés, eu só preciso conhecer o verão e me acostumar com ele. Adaptação necessária.

A maior verdade é que de onde eu venho, as casas são todas de barro e quando venta muito forte elas caem. O vento as destrói sem piedade e por mais que se tente reconstruir as casas da minha vila, elas nunca se refazem completamente. Fica sempre uma parede fragilizada onde as frestas permitem o frio do inverno machucar a pele e partir os lábios. Por vezes, o frio foi tão rigoroso que os pulmões eram atingidos causando severo sofrimento.

Aqui fez tanta seca, que quando veio a chuva ela se fez em enxurrada e talhou enormes precipícios.

Eu sou uma destas casas de barro que um dia fora estilhaçada pela natureza revolta. É fato que também fui metade reconstruída, mas a outra metade se perdeu. De onde eu venho, um amor foi este vento forte que me derrubou. O certo é que não era um amor, mas eu acreditava que era, depois disto parei de acreditar.

Agora me pedes para acreditar, eu confesso que acredito, mas quando quebras tuas promessas mais simples eu desacredito outra vez e volto a estaca zero.

Agora te vejo do outro lado do precipício pedindo para que eu salte sem medo, mas eu não consigo saltar, não sou pássaro, sou apenas uma casa de barro fincada ao solo que restou das tempestades maciças. Eu posso ser pássaro, afinal seres são a evolução, mas preciso que me ensines a ter asas, preciso que compreendas o que eu sou, preciso que não te machuques ao me ver, preciso que não me peças para esperar, porque ficar gritando do outro lado do penhasco não vai me fazer mutante e logo é chegado o tempo das próximas chuvas fortes e não vou resistir.

Casas de barro são sim feitas de barro, o barro é terra, a terra é frágil diante a força das águas. Inda que eu fosse rocha, até as rochas de modificam com a ríspida ação da natureza.

A natureza é perversa? Não! Nós é que somos elementos frágeis. A natureza existe, simplesmente. Não foi eu quem a criou.

Talvez eu não saiba te amar, talvez tu não saibas me amar. Eu não sei. O que eu sei é preciso de ti e que não existem erros ou culpados, até porque eu não acredito na culpa, a culpa é uma invenção desmedida para que o ser humano tema, para justificar um ato impensado e os erros não fazer parte do somos, do que sonhamos, do que sentimos.

Amar não é errado. Amar é bom.

“Eu preciso de ti.”

Tantas vezes eu me repeti, mas penso que não soube me fazer entender. “Eu preciso de ti.” Eu gritei tantas vezes, mas agora minha voz se faz e rouca e baixa e os teus ouvidos estão tão longes de mim. Queria encontrar outra forma de me fazer clara. Tenho que aguardar minha voz se fortalecer para gritar novamente e agora se faz dolorida a minha garganta.

Eu preciso de ti porque não sei caminhar agora e porque este momento de faz delicado. Eu preciso de ti porque eu tenho medo, mas não sinto vergonha em ter medo. Eu preciso de ti porque não sou forte o bastante e ainda estou em reconstrução. Eu preciso de ti porque me dizias todos os dias, que nos amávamos, mas não poderíamos nos amar. Eu preciso de ti porque sou eu quem está arriscando mais uma vez. Eu preciso de ti porque me preparei para viver sem o teu amor e me acostumei apenas com o teu cumprimento matinal. Eu preciso de ti porque queres me amar e queres que eu te ame. Eu preciso de ti porque também quero o teu amor em minha cumplicidade.

“Eu preciso de ti porque sou metade e sem a tua metade eu nada sou.”



Léa Ferro. 06 de Outubro de 2008.

Copyright © [Léa Ferro]. Todos os direitos reservados.

Léa Ferro
Enviado por Léa Ferro em 09/05/2010
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